sexta-feira, 9 de abril de 2010

18. o mundo de pernas para o ar



















este mundo anda de pernas para o ar.
de repente, deixa-nos sem casa, sem roupa, sem cama, sem esperança.
faz-nos sentir pendurados de cabeça para baixo, presos por algo intangível e frágil. e, obviamente, de cabeça para baixo deixamos cair muito mais ideias e pensamos menos bem.
e se às vezes conseguimos chegar aos pés e soltar o fio que nos prende, caímos em solo incerto, ou em areias movediças, ou em carvão incandescente. parece sempre preferível a estabilidade da fragilidade do fio à incerteza do que encontraremos se soltos dele.

este mundo, repito, anda de pernas para o ar.
as estações do ano andam todas muito confusas. este cantinho à beira-mar plantado, sempre muito ameno, mas sempre com as estações do ano bem definidas, tem agora dias de verão em pleno inverno, tem dias de temporal no meio do verão, a primavera e o outono deixaram de ter aquele meio-termo característico da passagem do frio para o calor e vice-versa.

este mundo, reitero, anda de pernas para o ar.
lembro-me como se fosse hoje: em pequeno, as notícias que davam na televisão não eram todas negativas. havia sempre algo que nos fazia sorrir, viajar, imaginar, deambular. havia sempre algo que nos aquecia o coração ou que nos fazia ter vontade de estar em algum sítio especial, algum tesouro perdido neste vasto planeta. mas isso era dantes. agora tudo o que vemos na televisão são desgraças, a maior parte delas completamente irrelevantes para o comum mortal/espectador. o sensacionalismo vende como nunca. as notícias são exploradas até ao limite, ou mesmo ultrapassando-o. quanto mais sangue e morbidez tiver uma notícia, mais tempo de antena tem.
ou isso ou o maldito futebol. chega a ter honras de notícia de abertura, e muito mais frequentemente do que o razoável. realmente não gosto de futebol, mas o meu gosto pessoal não vem ao caso. não consigo entender que pertinência tem um resultado de um jogo qualquer, muito menos que seja a primeira notícia a ser difundida e a chegar ao lar de milhões de espectadores. e não adianta mudar de canal, porque todos fazem o mesmo.

este mundo anda de pernas para o ar, já tinha dito?
deixou de haver respeito e entreajuda pelo próximo. neste momento, as pessoas só querem saber do próximo se for para assumir uma atitude de superioridade para com esse próximo. 'eu sou melhor do que tu, visto-me melhor do tu, tenho um carro e um computador e um telemóvel e uma casa melhores do que os teus, e só descanso quando estiveres na lama e eu te passar o meu sapato por cima'. todos têm algo a dizer sobre a vida do próximo, sobre o modo de ser, de estar, de pensar, de sentir, de amar. até a liberdade de escolha do próximo é colocada em causa, porque o próximo não é livre de escolher quem ama, com quem se relaciona, quem são os seus amigos. ou pelo menos todos tentam controlar estas suas escolhas.

este mundo, concluo, anda de pernas para o ar...

sexta-feira, 19 de março de 2010

17. regresso?

















MUITA água correu desde a última actualização desta página...
encontros e desencontros, em quase dois anos de ausência.
a minha vontade em manter esta página activa continua forte, mas sempre fui um péssimo gestor do meu tempo e por isso este projecto acaba sempre por sofrer as consequências disso mesmo.
Para já, o formato mantém-se. um tira as fotos, outro escreve os textos. até quando, é uma incógnita, como tudo na vida.
para já, aqui fica uma foto tirada já em 2007, em Madrid, que me agrada muito pela simplicidade e pelo arrastamento da água, este elemento que por onde passa nada resiste...

bem-vind@s de volta às comsequências.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

16. intervalo

com_sequências premeditadas


















ausências imprevistas.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

15. memórias



desde o dia em que nascemos até ao dia em que morremos, tod@s nós somos pouco mais do que esponjas. absorvemos imagens, sons, palavras, conceitos, significados, pessoas, sentimentos, leis, regras, comportamentos, gostos, relacionamentos. e tudo o que absorvemos passa a fazer parte do que somos. mais. somos apenas o que conseguimos absorver. se, mal nascêssemos, conseguíssemos isolar-nos de tudo, não seríamos nada. ou o pouco que seríamos não chegaria para sermos considerados indivíduos. nunca aprenderíamos a comunicar - não haveria necessidade de comunicação nem ninguém com quem aprender essa habilidade -. não saberíamos nunca o que é entregar-nos a alguém...

mas este isolamento é verdadeiramente impossível e o que somos depende única e exclusivamente da quantidade de elementos externos aos quais fomos submetid@s enquanto seres vivos pensantes. como uma imensa e incrivelmente absorvente esponja, interiorizámos tudo aquilo que, por muito leve que tenha sido, passou por nós e deixou a sua marca.

e, quando o nosso por-do-sol chegar, sentir-nos-emos uma frondosa árvore, na qual todas as nossas memórias estarão penduradas como bolas que a enfeitam...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

14. noites intermináveis



a noite é muitas vezes um estado de espírito por si só. podemos estar em pleno dia, duas da tarde de um dia de sol magnífico, e sentir em nós uma noite escura e fria.

este blog tem visto alguns dias de noite. a actualização não tem sido a mais desejada, muito por culpa da convencida da inspiração: tem estado muito em baixo, coitada. isso, a juntar a outra sua amiga, a falta de tempo, faz com que seja pouca a manutenção deste sítio.

tentemos fazer com que isso mude.

a noite estava fria, mas convidativa. apenas algumas luzes salpicavam o horizonte e espalhavam o seu reflexo no rio, calmo como um espelho. algumas nuvens ameaçavam, mas não cumpriam. a noite estava destinada a não ser molhada.

passo aleatoriamente por este cenário, comum a muitas outras noites e muitos outros dias, e a fotografia urge. é hoje. não há razão aparente para que a foto seja tirada hoje em detrimento de todos os outros dias e todas as outras noites em que passei aqui e a objectiva não captou o que a iris estava a captar. apenas uma conjuntura que me leva a tirar esta foto aqui e agora. esta mesma fotografia foi tirada centenas de vezes anteriormente, mentalmente. já estava praticamente feita. já existia num espaço mental impossível de materializar. por isso existem as câmaras fotográficas - para que uma pessoa possa mostrar aos outros a imagem que viu e que quer partilhar.

e em noites como estas os olhos guardam tantas imagens...

terça-feira, 25 de março de 2008

13. a luz e a sombra






















a sala estava escura e fria.

havia apenas duas fontes de luz, bastante diferentes, mas igualmente ténues: o luar que entrava pela janela e que projectava o caixilho da janela na parede; um brilho misterioso que emanava de algo que estava suspenso no tecto, bem alto.

um brilho que nos faz ficar hipnotizados. que nos faz imaginar lugares longínquos, estórias de encantar, tempos idos, mundos ainda por descobrir.

imagens como esta fazem-nos viajar sem sair do lugar. permite-nos sair de nós e, neologismo pessoano, outrar-nos. dá-nos vontade de entrar naquela estrutura, passar para o lado de dentro, banhar-nos na luz que vemos de longe.

podemos ver esta estrutura iluminada como um 'portal' de luz para outra dimensão ou uma 'cela' para algo que detém em si uma luz capaz de aquecer os olhos e o coração dos que a vêem.

a luz do luar não aguenta a passagem para segundo plano e esmorece...

sexta-feira, 7 de março de 2008

12. redundâncias redondas

























o que mais me agrada no ser humano em geral é o que menos me agrada no ser humano em particular - a sua capacidade de ser redondo. e não me refiro às adiposidades que a ou b possam ter. falo da redonda capacidade de um ser humano se (re)fazer a cada passo que dá. o que hoje para mim é verde azeitona amanhã pode ser cinzento rato. é a isto que se chama uma personalidade redonda. redonda em oposição a plana. claro que esta característica torna o ser humano muito interessante, por ser cada dia diferente, mas também o torna muito mais dificil de se viver com. um cão é um cão todos os dias da sua vida de cão. uma pessoa, no mesmo dia, e, dependendo das pessoas, na mesma hora do dia, pode ser muitas diferentes. pode ser o homem que acorda de manhã e dá os bons dias com a cara com que dormiu, arrancada da almofada que grita de saudade da cara que se desprendeu dela para começar mais um dia. ou o mesmo homem que, banho tomado e barba feita, toma um pequeno-almoço rápido e mecanicamente deglutido, sem se aperceber que para que aquele pequeno-almoço surja, alguém teve de prepará-lo. ou o mesmo homem que, chegado ao escritório, enceta uma jornada de trabalho como tantas outras, em que tem de vestir a pele do cordeiro e do lobo dezenas de vezes por dia, nunca chegando a ser nem o cordeiro nem o lobo. ou ainda o mesmo homem, ou uma sombra deste, que, depois do expediente, chega a casa tão cansado que dispara contra tudo e contra todos a sua frustração pelo dia de trabalho não ter sido propriamente um 'dia de sonho' nem o trabalho ser propriamente um 'trabalho utópico'.


e o mesmo homem, no dia seguinte, vai ter um dia mais ou menos semelhante a este. e no seguinte. e no seguinte. até ao dia em que o piloto salta, a pressão faz estourar a epiderme e solta-se o revoltado, o enfurecido, o louco. e nunca se percebe porquê...


neste planeta redondo, o Homem, como ser dominante que é, é igualmente redondo, com ideias redondas, casas redondas, redomas redondas, escudos redondos, pensamentos redondos.


felizmente que alguns têm escotilhas...